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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Miley Cyrus e a Salvia Divinorum

 - Diretamente do Hempadão - por Fernando Beserra


Recentemente Miley Cyrus, atriz que protagonizou o seriado Hannah Montana, foi filmada em seu aniversário fumando um bong. A noticia repercutiu como se a famosa jovem tivesse fumado cannabis, isto é, maconha, entretanto, ela mesma informou que teria fumado Salvia divinorum. Muitas notícias sensacionalistas vieram desta informação, já que a Salvia divinorum, embora tenha sido cada vez mais utilizada nos EUA, ainda não é muito conhecida mesmo por muitos “especialistas” em substâncias psicoativas.
De modo geral, tem-se dito apenas que a Salvia divinorum é perigosa por ser um “alucinógeno” podendo causar toda série de alucinações, desrealização, delírios, em suma, desorientações da senso-percepção, do pensamento e dos afetos, facilitando atitudes auto-destrutivas como um caso narrado de suicídio após um uso semanal da substância. Desta forma, cresce o número de pessoas pedindo sua proibição, já que a Ska pastora – nome original da planta - não possui legislação específica na maior parte do mundo, não sendo legalizada, pois sequer chegou a ser proibida nestes locais.

Com efeito, pouco tem sido teorizado, provado, ou refletido a luz de uma análise menos comprometida com preconceitos, estereotipias e pré-julgamentos, baseados no proibicionismo enquanto política de drogas do common sense (construído no último século, diga-se de passagem). A partir de tais notícias, são forçadas causalidades suspeitas, com o intuito de levar o espectador a crer que uma substância teria o potencial de produzir, isoladamente, um comportamento. Trata-se de um reducionismo que elimina da análise toda a existência anterior do sujeito, todas suas outras vivências, expectativas, desejos, etc., reduzindo toda sua complexa vida a um fator, doravante sombrio: “O uso de uma substância”.

A Salvia divinorum é uma planta da família das Labiatae, da família da Menta, que contêm o diterpenóide salvinorina A e B, sendo a primeira o principal princípio ativo da Sally-D, como ficou conhecida nos EUA. Esta planta, singular entre os enteógenos, portanto, de difícil comparação com outros enteógenos, era consumida no México por povos tradicionais da região. Ela era utilizada em ritos e, assim como outros enteógenos usados na região, visava a produção de um contato com a realidade sobre humana que, com um risco de erro, podemos chamar de “numinosa” ou extra-ordinária. Assim, no contato com tal realidade os curandeiros poderiam chegar a diagnósticos de doenças, curas ou mesmo levar o doente a resignação diante de doenças intratáveis. De acordo com Maria Sabina (sábia dos cogumelos, como ficou conhecida) a Salvia D. era utilizada na ausência dos cogumelos psilocíbicos, estes sim bem mais populares entre os povos indígenas mazatecas.

Considerados por alguns como um enteógeno menor, por outros como o enteógeno par excellence (Bigwood), a Salvia D. permanece como uma substância misteriosa. Foi chamada também, por Diaz, junto as Cannabis e a Calea zacatechichi de Onirógena, ou seja, produtora de sonhos. A dificuldade do uso tradicional, que se dava mastigando as folhas, se dá pelo péssimo gosto. Embora não-índios já utilizem a Salvia d. fumando-a desde o início da década de 1970, é mais recente a popularização de “extratos” da Maria Pastora para o fumo. Tais extratos visam, pela combinação de folhas e potencialização do princípio ativo, um uso facilitado e mais forte, levando o uso da Salvia divinorum a outros patamares. Tais usos são inéditos e chegamos a usos, portanto, preocupantes se não tivermos estudos que nos levem a visualizá-lo sem o prisma do preconceito e da misantropia. Usos com riscos, pois se o uso tradicional da Salvia d. possui uma segurança atestada pela longa história de seu uso por povos tradicionais, por outro lado, tais extratos chegam a potencializar o uso da Sally-D em 5, 10, 20 ou mesmo 50 vezes.

Não há dúvidas de que ao lado de usos não problemáticos da Salvia divinorum, usos com conhecimento de causa, com intenções elaboradas e em contextos apropriados, usos indevidos tem sido realizados, sem o menor cuidado com “quantidades” do uso, elaboração de finalidades, preparação de cenário, etc., levando a situações que colocam em risco os usuários. Notícias sensacionalistas como ocorreram tantas vezes no “caso” de Miley são preocupantes, pois podem induzir ou potencializar usos inadivertidos, já que o assunto não foi discutido, apenas o uso da atriz demonizado. Tal uso demonizado contribui, além do nosso já escasso conhecimento da Salvia divinorum, para a invenção de estereótipos sombrios entre os usuários da Sally D. o que já ocorreu tantas vezes na história do uso de substâncias psicoativas tornadas ilícitas.
É preocupante, muito mais do que com o uso da Salvia D. por psiconautas, o uso desta planta por jovens que visam utilizá-la apenas ludicamente, mas, sem o processo de busca ativa de informações sérias que levem a estratégias de uso mais sadias. Sem tal busca por um uso mais responsável, corremos o risco, devido à estrutura de efeito da planta, especialmente em extratos bastante fortes, de produzir bad trips em grande quantidade nestes novos usuários, que nem sempre estão preparados – ou possuem um círculo protetor – para que tais peias venham a se tornar alimento para transformações positivas em suas vidas.

Outro risco que deve ser combatido seria a proibição da planta, como toda proibição, vulgar, pois oculta e impede estudos que visariam produzir outras qualidades de uso, sejam medicinais, visando transformações pessoais ou mesmo usos lúdicos. Trata-se de possibilitar diferentes usos, ao invés de um combate contra pragmático, re-vendo, re-imaginando, e caminhando sempre para a diminuição de riscos e danos, levando em consideração que o uso não cessará pela via da proibição, mas a proibição apenas poderá tornar mais nebuloso tal cenário, por exemplo, com a criação de “novos produtos” do mercado ilegal com misturas nocivas para a saúde dos usuários, além da contribuição de mais um produto para traficantes violentos – frutos da proibição - venderem sem qualquer regulamentação, para pessoas de qualquer idade ou saúde mental.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Salvia divinorum

Nós prometemos e eis ai, um texto de referência para conhecermos um pouco mais da Salvia divinorum. A leitura do Jonathan Ott não é das mais fáceis e seu conhecimento é exposto em profundidade, mas, para quem corre o risco de ficar sem compreender plenamente uma ou outra passagem, ganhará um enorme conhecimento sobre esta antiga e tradicional planta: Ska Pastora. Em breve ainda traremos um texto síntese tratando do caso da atriz de "Hanna Montana", Milley Cyrus, recentemente "flagrada" fumando Salvia divinorum.
        
  Pharmacotheon – Jonathan Ott (páginas 377-380)
  Tradução: Fernando Beserra
  Sub-capítulo: Salvinorina A e Ska Pastora



As salvinorinas são um grupo de diterpenóides não nitrogenados obtidos da pouco conhecida planta enteogenica mexicana Salvia divinorum, da família das Labiatae ou Lamiaceae, a família da menta. Diterpenóides similares como a salviarina e a splendidina foram isoladas da Salvia splendens e de outras espécies do gênero Salvia (Savona et al. 1978; Savona et al, 1979). Estes diterpenóides podem ser que constituam uma nova família de compostos psicoativos. A loliolida, um repelente de formigas, foi obtida recentemente da Salvia divinorum (Valdés 1986). Salvia occidentalis se utiliza por suas virtudes analgésicas entre os índios cuna do Panamá (Duka 1975). No passado se especulou que Salvia persepolitana poderia ser o antigo enteógeno iraniano haoma (veja capítulo 4; Doniger 1987 O´Flaherty 1968). Inclusive a salvia utilizada correntemente na cozinha Salvia officinalis pode produzir “intoxicação e vertigem” se se cheira por muito tempo (Duke 1987). A colforsina (conhecida habitualmente como forskolin e seu distereomero o coleonol) é um diterpenóide relacionado que procede de outra planta da família das Lamiaceae, Coleus barbatus, conhecida correntemente como C.forskohlii (Ammon e Muller 1985; Valdés et al. 1987b) havendo-se demonstrado que possui propriedades hipotensoras (Dubey et al. 1981). Duas espécies de Coleus não originárias do México, C.blumei e C.pumila são consideradas por alguns xamãs mazatecas como pertencentes a mesma “família” da Salvia divinorum, mas sua composição química e propriedades farmacológicas seguem sendo desconhecidas (Wasson 1962b). Coleus blumei se utiliza em medicina tradicional da Samoa como remédio para a elefantíase (Uhe 1974). Outra espécie do gênero Coleus se usava entre os nekematigi da Nova Guiné no tratamento das dores de cabeça (Johannes 1975). Uma espécie de menta amazônica, Ocimum micranthum, foi assinalada como aditiva das poções enteogências de ayahuasca (ver capítulo 4; Schultes e Hofmann 1979) e Mentha pulegium foi a sua vez um ingrediente da poção enteogênica kykeon dos Mistérios de Eleusianos (Wasson et al. 1978).

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Reportagem sobre a Salvia Divinorum

Em breve faremos uma análise do Vídeo que saiu ontem (19/12/2010) na Rede Record

http://noticias.r7.com/videos/miley-cyrus-e-flagrada-fumando-substancia-alucinogena/idmedia/2ed363044f20344297a88760084b7a4d.html

Por enquanto temos que engolir uma série de equívocos anunciados por um pseudo especialista.

Abraços

terça-feira, 6 de abril de 2010

Pequeno Dicionário de Psicodelia

Da galera que escreve aqui e 
quiser adicionar mais coisas é 
muito bem vinda.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O barato da sálvia

O barato da sálvia

Fonte: http://www.bialabate.net/news/o-barato-da-salvia

Reportagem publicada na Folha de São Paulo, quinta-feira, 18 de setembro de 2008.

Consumo da erva como alucinógeno por jovens pode prejudicar as pesquisas para uso medicinal
KEVIN SACK
BRENT MCDONALD
DO “NEW YORK TIMES”

Enquanto um amigo gravava em vídeo, Christopher Lenzini, 27, de Dallas, tomou uma dose de Salvia divinorum, considerada a mais poderosa erva alucinógena do mundo, e começou a imaginar que estava em um barco com pequenos homens verdes. E não demorou a cair, às gargalhadas. Quando ele postou o vídeo no YouTube, algumas semanas atrás, foi visto várias vezes.

Há uma década, o uso de sálvia estava limitado a pessoas que buscavam revelações com xamãs em Oaxaca, no México.

Hoje, esse membro alucinógeno da família da hortelã está legalmente disponível, nos EUA, pela internet e em lojas de produtos naturais, e se tornou uma espécie de fenômeno entre os jovens. Mais de 5.000 vídeos no YouTube documentam as jornadas dos usuários à incoerência e à perda da coordenação motora. Alguns já foram vistos 500 mil vezes.

No entanto, as imagens que ajudaram a popularizar a sálvia podem acelerar a proibição de sua venda legal e solapar pesquisas promissoras sobre seus potenciais usos medicinais.

Os farmacologistas que acreditam que a sálvia poderia abrir novas fronteiras no tratamento de vícios, depressão e dor temem que, caso seu uso seja criminalizado, obter e armazenar a planta se tornaria difícil, assim como conseguir permissão para testá-la em humanos.

Em vários Estados, os vídeos se tornaram a principal prova para a regulamentação da sálvia. A Flórida, por exemplo, tornou crime passível de até 15 anos de prisão a posse ou venda da erva. Na Califórnia, a venda a menores virou um delito.

Segundo dados do governo federal norte-americano, cerca de 1,8 milhão de pessoas já experimentaram a sálvia -sendo que 750 mil delas provaram a erva nos últimos 12 meses. Entre os homens de 18 a 25 anos, o consumo foi relatado por 3%, o que a torna duas vezes mais utilizada que o LSD e quase tão popular quanto o ectsasy.