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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Enteógenos e crises transformacionais


Fonte: Hempadão
por Chaos Baby

Que o uso de enteógenos está ligado a processos espirituais e de desenvolvimento pessoal não é nenhuma novidade, todo mundo já sabe. Mas e quando você não está procurando por isso e uma crise transformacional é desencadeada pela ingestão de algum enteógeno?

De fato, nós sempre esperamos algum efeito, mesmo quando estamos apenas interagindo com o enteógeno de uma maneira “recreativa”, esperamos ser arrastados desde as alturas até os mais atormentadores infernos, sabemos que não podemos nunca prever como uma experiência num nível tão alto de consciência pode ocorrer, tentamos ser o mais cuidadosos possível com o ambiente, as pessoas e até mesmo buscamos observar nosso estado de espírito a fim de tentar minimizar efeitos ruins ou as conhecidas bad trips. O que raramente se espera é que o enteógeno desencadeie uma crise transformacional, por Stanislav Grof chamado de Emergência Espiritual.


"As Emergências espirituais podem ser definidas como estágios críticos e experimentalmente difíceis de uma transformação psicológica profunda que envolve todo o ser da pessoa. Tomam a forma de estados incomuns de consciência e envolvem emoções intensas, visões e outras alterações sensoriais, pensamentos incomuns, assim como várias manifestações físicas. Esses episódios que normalmente giram em torno de assuntos espirituais, incluem seqüências de morte e renascimento psicológico, experiências que parecem memórias de vidas passadas, sensações de união com o universo, encontro com diversos seres mitológicos e outros temas semelhantes".

Esse tema acabou sendo levantado e novamente estudado por mim depois da ultima experiência com enteógeno onde a bad trip pareceu não passar, ainda que dias já tivessem passado depois da ingestão. Durante a experiência, que tive com meu namorado, lembranças dolorosas da infância foram levantadas e assimiladas com a situação presente, onde fui arrastada para um campo emocional e mental que em estado comum de consciência eu costumo evitar ou negar a existência. Tais lembranças, assimilação e uma profunda observação de um padrão comportamental repetitivo e altamente perturbador não me levaram prontamente para um despertar espiritual, mas para uma crise transformacional, crise tal que durou dias e que ainda me encontro.

Embora tais crises possam nos arrastar para o limbo e estados depressivos, entre outros distúrbios mentais, emocionais e até mesmo físicos, elas também são vistas da perspectiva psicológica e espiritual como oportunidades para a transformação do ser. Temos uma tendência à acomodação. Costumamos deixar-nos viver do que de fato viver a vida, seguimos com nosso script cotidiano interpretando nossos papéis de pais, filhos, irmãos, profissionais, amigos, etc, sem sequer questionarmos porque o fazemos, não questionamos o significado da vida, o seu propósito e o seu valor. Buscamos satisfazer nossos desejos materiais, emocionais, físicos, etc; e caminhamos em busca do prazer, altamente focados no mundo material como se essa fosse a última e final realidade. Muitas vezes nessa vida “consensual” alguns até podem se intitular religiosos e acreditarem em Deus, ir às missas aos domingos e sentir que fez tudo o que poderia fazer em termos religiosos e sentir-se confortável com isso. Mas, quando eu trato de espiritualidade, eu não estou falando a respeito da questão de se ter uma religião ou uma crença, eu reconheço a espiritualidade como toda a nossa experiência interna e externa, nossa verdadeira expressão e manifestação no mundo.

Essas crises acontecem justamente porque nosso espírito está sempre ávido a libertar-se, não se trata de sair de nosso corpo, ou de uma questão metafísica, mas todos ansiamos por uma libertação da rotina ou de estados comportamentais condicionados por nós mesmos ou por outros, ou de estruturas mentais convencionais. Sem percebermos, nós encarceramos nosso espírito em velhas formas, evitamos nos aperceber de nossos potenciais criativos, não deixamos essa energia fluir por medo, comodismo ou negação, ou por qualquer outro fator que nos mantém presos e preguiçosos. Quando esse trabalho de libertação se torna necessário ao extremo, mas que não o fazemos voluntariamente, por mais que saibamos que uma mudança está sendo profundamente requerida, então nossa psique trata de dar um jeito nessa situação, subjugando nossa personalidade e gerando crises para forçar o desenvolvimento.

Não somente os enteógenos podem desencadear tais crises, a morte de um ente querido, doenças, divórcios, nascimentos, abortos, acidentes, quase morte, práticas de meditação, yoga, entre variadas práticas espirituais intensas e etc, todos podem acabar te levando a uma crise transformacional. O desenvolvimento do ser e/ou despertar espiritual pode acontecer de maneira muito sutil e gradual e com os anos você acaba percebendo o quanto se modificou no decorrer da sua vida. Mas quando essa necessidade é negligenciada ou não é conscientemente aceita por quaisquer motivos, então você pode ter que encarar uma crise. Suas crenças serão abaladas, surgem os questionamentos sobre o seu jeito de ser e de se comportar, de encarar a vida, uma onda de insatisfação vai se tornando crescente, o seu relacionamento com o mundo externo vai se modificando, sua realidade pessoal é abalada, uma mudança súbita ou gradual de sua vida interior pode ser experimentada. A pessoa se sente carente, sente que “alguma coisa está faltando”, sem definição, algo vago que ela não sabe descrever, não sabe o que é. Nesse momento ela está diante de uma Emergência Espiritual.

A vida simplesmente é movimento e mudança, ela está constantemente fluindo, mudando, se transformando. Quando estagnamos e não queremos mudar estamos tendo um movimento anti-vida e nosso espírito, psique, alma, ou seja lá que nome você gostaria de dar para isso, que está intimamente ligado a vida, dará um jeito de lembrar-te que você está vivo. Por mais assustadoras ou difíceis que as crises possam parecer, elas estão te invocando para se abrir e deixar que a mudança ocorra. Elas estão dizendo que uma nova pessoa precisa se manifestar, elas estão dizendo “ei, cara, pegue esse atalho”. Ou como o Leary diria: Ligue-se, Sintonize-se e Caia Fora. Ou: Turn on (desperte sua mente), Tune in (sintonize-se com seu interior) and drop out (abandone conceitos pré-estabelecidos, expanda sua mente).

Grof enfatiza que a Emergência Espiritual deve ser observada com cuidado, recomendando que se busque apoio nesses momentos. Por ele mesmo:

“Devido ao perigo e ao potencial positivo presentes nessas crises, as pessoas que por elas passam precisam de orientação especializada de pessoas que têm experiência pessoal ou profissional com estados de consciência incomuns e que saibam trabalhar com elas e dar-lhes apoio. Para pessoas que passam por uma crise evolutiva dessa espécie, os rótulos patológicos e o uso insensível de várias medidas repressivas, inclusive o controle de sintomas por meio de medicação, podem interferir no potencial positivo do processo. A conseqüente dependência duradoura de tranqüilizantes, com seus conhecidos efeitos colaterais, com a perda de vitalidade e com um modo de vida comprometido são um triste contraste com as raras situações em que a crise de transformação da pessoa recebe apoio e validação e tem permitida a sua complementação. Portanto, não podemos acentuar em demasia a importância da compreensão da emergência espiritual e o desenvolvimento de abordagens amplas e eficazes para o seu tratamento, bem como de sistemas de apoio adequados.”

Isso faz com que olhamos para os enteógenos com um pouco mais de respeito e cuidado, ele sempre será uma iniciação, ele sempre trará algum aprendizado para você, ele sempre te arremessará para uma profunda compreensão de si, um reconhecimento, uma descoberta. Se para isso for necessário uma crise, então esteja certo, sua psique dará um jeito disso acontecer e negar-se a viver esse processo de transformação só fará com que seus sintomas intensifiquem, que poderão ser experimentados como um sentimento de solidão profundo e de que ninguém será capaz de nos entender. Sensações de desespero, angustia, medo de enlouquecer, visões, intuições, etc. Esse é o momento de uma busca espiritual, pois ninguém pode passar por uma grande crise e se sair bem com ela sem que tenha uma experiência espiritual e Jung apoiaria essa ultima frase.

Buscamos então estarmos abertos para as mudanças, deixar que a crise abra-nos de modo a deixar que nosso espírito se expresse e se liberte, deixarmos que uma nova pessoa venha ao mundo, que nossos potenciais se manifestem. Para isso que as plantas de poder foram e são altamente usadas no Xamanismo e em várias outras religiões e sistemas espirituais. Nós não podemos modificar o mundo, mas temos todas as ferramentas necessárias para mudar a percepção que temos dele.

"Viver é surfar o caos. Você não pode modificá-lo, mas pode aprender a lidar com ele surfando seus limites. Tem mais, meu caro: ninguém é realmente místico por mais de cinco minutos. Não está contente ainda? Te digo uma coisa que aprendi na minha vida, aprendi muito profundamente: toda a realidade que nos cerca não passa de uma opinião". – Timothy Leary.

sábado, 16 de abril de 2011

Entrevista com Chaos baby



Como muita gente já sabe, o “Portas da Percepção” é um espaço dedicado ao estudo, desmistificação, e ampliação do conhecimento geral sobre enteógenos e enteogenia. Para ampliar nossas Portas, vamos convidar uma ilustre convidada, que chamemos, em nosso aconchegante canto de reflexões, de Chaos Baby. Conhecedora das tradições ocultistas ocidentais e indígenas, Baby veio dar um toque feminino ao Portas. Comecemos com uma entrevista com a caoista.

Fernando Beserra: Baby, como foi que você conheceu os enteógenos?

Chaos Baby: Com um grupo de magistas do caos que eu fiz parte por muito tempo a alguns anos atrás.
Eu já tinha lido em alguns livros a respeito de conhecimentos espirituais adquiridos por meio do uso de psicoativos, mas meu interesse na verdade aumentou quando eu pude obter minha primeira experiência e viver algo que eu jamais poderia ter vivido, ou experimentar o mundo de uma forma que eu jamais experimentaria se não tivesse experimentado um enteógeno antes. E sincronicidade ou não, minha primeira experiência foi com a Ipomoea violacea, ou Morning Glory se preferir. Embora a leitura do assunto sempre fosse muito agradável (sempre gostei muito de Timothy Leary e Carlos Castañeda, entre outros) meu interesse aumentou verdadeiramente quando realmente passei a experimentar os enteógenos e viver por mim mesma a experiência. Depois de uma experiência profunda foi que retomei os velhos livros e compreendi mais profundamente o que os autores estavam querendo me passar, até então, eu simplesmente lia e entendia tudo num nível muito teórico, o que é insuficiente no campo do conhecimento, as palavras são muito debilitadas e embora tentamos descrever o que uma coisa é, somente quando experimentamos é que podemos mesmo entender o que tal coisa é. Um exemplo para o que eu quero dizer, é que eu posso tentar descrever o que é uma maçã, sua forma, sua cor, seu suco adocicado e dizer que é agradável demais comer uma maçã, mas alguém só saberá o que é a experiência de se comer uma maçã no dia em que comer uma, até então o máximo que pode ocorrer é que a pessoa saiba que existe algo como uma maçã e que proporciona um sabor adocicado ao paladar.

FB: Você acha que eles contribuem de alguma forma para sua vida? Como?

CB: Eu sempre fui uma pessoa que pensou haver “algo a mais” do que as velhas histórias já contadas e sempre fui uma pessoa ávida por saber o que há além dessa percepção corriqueira. Os enteógenos contribuem com milhares de coisas, alguns me deixam mais criativa, outros me fazem olhar para aquilo que eu sou ou para aquilo que acredito e categorizar os eventos sob uma percepção diferente, nova, além dos limites estabelecidos. Não vejo de maneira alguma que os enteógenos são o fim, mas instrumentos de autoconhecimento e servem dentre outras coisas como um modo de interpretar a vida ou a descrever de uma maneira diferente. Vejo-os contribuir para uma reestruturação, como um meio de conhecimento ou como uma nova maneira de ver as coisas. E assim eles contribuem para mim, dando um novo sentido a tudo e a vida, sob uma perspectiva totalmente diferente abrindo definitivamente as portas da percepção.

FB: Alguma mensagem para os leitores?

CB: Jamais permita que te neguem o direito de ser o que se é, de viver como se vive, de se acreditar no que se acredita. Cada um de nós é uma expressão da vida como um todo e somos perfeitos por isso. Dizer que estamos errados ou acreditar que somos inadequados, é dizer que o universo em sua perfeição errou em uma de suas obras.

terça-feira, 15 de março de 2011

Cannabis é enteogenica ou não?


Bem,  após este longo intervalo do carnaval, vamos voltar a ativa.. Este post foi produzido no carnaval, numa lan house, sem word e os méritos da organização do texto e iconica fica pela equipe a frente na organização do hempadão. 
Vamos ao post.
Portas da Percepção: A Cannabis é Enteogênica ou não?

quinta-feira, 10 de março de 2011

por Fernando Beserra

Após inacreditáveis críticas pelo relato do uso da salvia divinorum no último post, não poderíamos nos colocar um pé atrás em relação aos posts polêmicos. Resolvemos nos colocar no front da querela entre usuários de cannabis e enteogenistas e perguntar: Afinal, é a maconha um enteógeno?

Sabemos das dificuldades de determinar a origem da cannabis, embora fique claro que seus múltiplos usos remontem há, pelo menos, 10.000 anos. Não estamos aqui para discutir arqueologia, como os restos de fibra de cânhamo encontrados na China no quarto milênio a.C, ou se, de fato, o primeiro uso visando a alteração de consciência se deu no segundo milênio a.C no Atharva-Veda, quando já era considerada uma das cinco plantas sagradas da Índia. O que importa hoje, aqui e agora, é introduzir ou adentrar nos usos religiosos, introspectivos ou que visem ou visaram o auto-conhecimento ou o conhecimento de realidades extra-ordinárias. Em suma, seguindo as belas palavras de Walter Benjamin, falamos das "vivências de inspiração".


Para tal discussão, nos aconcheguemos na roda, e deixemos a fumaça baixar – ou subir. O uso da cannabis, ao longo da história, é múltiplo, isto é, serviu tanto para promover "atitudes lúdicas" quanto "formas de aprofundar a comunicação" (1). É evidente a maioria dos usuários que a cannabis promova, facilite ou induza a ambos: o uso recreativo e o uso visionário. O Dr. Charles Tart realizou um estudo pretendendo uma "fenomenologia do uso da maconha". Dentro das experiências comuns relatadas nos questionários por usuários, encontramos:

- Pulo de etapas intermediárias na resolução de problemas
- Insights sobre outras pessoas
- Idéias mais intuitivas
- Conversar inteligentemente, embora esqueça coisas
- Aprender muito sobre o que faz as pessoas funcionarem
- Falar coisas mais profundas, apropriadas
- Intuir, entendimento empático das pessoas
- No amor sexual, uma união dos espíritos, tal como dos corpos
- Diminui inibição
- A mente se sente mais eficiente em resolução de problemas
- Sentir-se um com o mundo
- Eventos, ações tornam-se arquetípicos (2)

A religião védica venerou a planta, fornecendo-lhe a pompa das belas palavras: "fonte de felicidade e de vida". As tradições bramânicas posteriores
consideraram que seu uso "agiliza a mente, concede saúde, valor e potência sexual"². De acordo com Escohotado, também possui um enorme valor dentro do budismo para a medicação transcendental. Estou certo de que o uso com esta última finalidade é, para os já acostumados a prática meditativa, e que se dão bem com a erva, um excelente auxiliador e, dependendo da qualidade da planta, pode levar a experiências equalizáveis a qualquer outro enteógeno de maior potência.

Embora o uso da cannabis tenha sofrido um eclipse no ocidente nas culturas cristãs (pós-gregas e romanas), seu uso manteve-se na África, Ásia Menor e Ásia Maior, sendo um "remédio dos mais versáteis, um veículo de meditação para xamãs, faquires, iogues e dervixes, e uma droga recreativa para diversos extratos sociais" (3)

Daí sua enorme importância nos meios Sufis, Rastafaris, no budismo, na contracultura psicodélica, no "club des haschischins", etc. Sendo tal sua história não é de estranhar que encontremos a maconha nos principais livros sobre enteógenos, tais como: "Las planta de los dioses", "Pharmacotheon", "Psychedelics Encyclopedia", etc, etc. Embora a cannabis seja um psicodélico sutil, como a chama Sttaford, não existem dúvidas quanto a suas capacidades para ampliação da consciência e contato com uma realidade numinosa, dependendo fortemente dos usuários, suas intenções e a preparação do cenário. O uso introspectivo se potencializa, sem dúvidas, quando é feito fora das famosas rodas de fumo e requer do usuário uma atenção não usual, senão uma verdadeira preparação. Isso não exclui, é claro, vislumbres intempestivos, que emergem, mesmo sem o controle voluntário do usuário.

E, aos leitores, fica a pergunta: Já tiveram experiências com o sagrado usando cannabis?

Abraços enteogênicos.

1 - ESCOHOTADO, Antonio. O livro das drogas. p.205.
2 - STAFFORD. Psychodelic Encyclopedia.
3 - ESCOHOTADO, op.cit
4 - Op.cit

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Cacto São Pedro ou Achuma: História e Repressão


Diretamente do Hempadão 

Continuemos na nossa onda falando sobre os usos tradicionais dos enteógenos?
- Sim, capitão (O coro)

Caso não haja alma viva em desacordo, nosso papo de hoje será sobre o Achuma ou cacto São Pedro. O cacto São Pedro[1] ou Wachuma,Echinopsis pachanoi (ou Trichocereus pachanoi)[2], é um cacto que contém como princípio ativo a mescalina[3] e tem um uso tradicional especialmente na América do Sul.




O uso do cacto foi bastante tradicional, de acordo com Richard Evans Schultes e Albert Hoffman (2000) em “Plantas de los dioses” o São Pedro foi: “uma das plantas mágicas mais antigas da América do Sul”, com provas arqueológicas do seu significado para as culturas no norte do Peru de 1.300 a.C. Na mesma obra, Schultes et al (2000, p.166) começam uma introdução sobre a planta com a seguinte citação:


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Repressão e preconceito: plantas enteógenas na América do Sul


 Post que escrevi, direto do Hempadão

Ainda hoje encontramos uma nefasta percepção do Estado, e de diversas esferas da sociedade, sobre os usos de enteógenos, sejam estes individualizados ou mesmo coletivos e ritualizados. Mesmo no Brasil, onde algumas religiões usam a ayahuasca como sacramento, resiste um preconceito inaudito, pois estas religiões, como se sabe, são extremamente ordeiras e normalmente adequadas à moral cristã ou, de modo geral, a moral aceita pela sociedade circundante. A situação se torna mais absurda se pensarmos que as religiões ayahuasqueiras são religiões brasileiras por excelência e patrimônio de nossa cultura.

Ora, este preconceito em relação aos estados alternativos de consciência não é novidade na constituição da subjetividade ocidental. Quando os europeus chegaram as Américas, já em meados do século XVI o uso local de enteógenos por povos tradicionais da região era conhecido. Por exemplo, sementes de glória da manhã, teonanácatl e peiote nos arredores do atual México, ayahuasca no norte brasileiro, achuma próximo das cordilheiras, etc... Além do quase onipresente tabaco.

Enquanto os europeus procuravam um uso diário de drogas como o álcool, evitando a ebriedade, mas mantendo o hábito, os povos indígenas faziam rituais ou atos festivos completamente diferentes. Se não eram feitos com a mesma regularidade, por outro lado, o uso do álcool e dos enteógenos normalmente visava à entrada em estados alternativos de consciência através do êxtase.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O transporte da Ayahuasca no Acre sem autorização pode resultar em prisão por tráfico de drogas

Fonte: Site da Bia Labate

A partir de agora o IMAC (Instituto de Meio Ambiente do Acre) estará fiscalizando o transporte do cipó e da planta usados para a fabricação da ayahuasca. A Polícia Federal alerta que o transporte desses produtos, sem a devida autorização que comprove fins religiosos, pode ser considerado tráfico de drogas.

 O Estado do Acre publicou a resolução nº 004 de 20 de dezembro de 2010, que dispõe sobre a autorização para extração, coleta e transporte do cipó banisteriopsis e das folhas do arbusto Psychotria, utilizadas na preparação da ayahuasca, também conhecida como Daime, Santo Daime Vegetal ou hoasca.

Segundo a resolução, o estado reconhece o uso ritualístico da Ayahuasca como prática religiosa legítima. Porém restringe a extração, coleta e transporte do cipó e folhas das referidas plantas, a entidades que deverão se cadastrar junto ao IMAC.

Conforme a resolução, para se cadastrar, a entidade religiosa deve ter sede e atuação comprovada no estado, buscar manter plantio de reposição de cipó e folha compatível com o que é consumido, informar o local do beneficiamento e o número de sócios e consumo médio anual.

O chefe do IMAC em Cruzeiro do Sul, Isaac Ibernon, disse que o assunto ainda será discutido junto ao Ministério Público do Estado e a Polícia Federal, para que em seguida os representantes das entidades religiosas possam ser informados sobre os procedimentos que deverão adotar.

O delegado da Polícia Federal em Cruzeiro do Sul, José Roberto Peres, alerta também que a ayahuasca não deve ser usada como atração turística ou comercial, conforme resolução anterior publicada pelo Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD). De acordo com o delegado, o transporte e uso individual dos produtos de composição da bebida que é uma substância psicoativa, contém Dimetiltriptamina (DMT) e por tanto, pode resultar em prisão por tráfico de drogas. “A Polícia Federal não é contra, o que não será permitido é a vulgarização do uso da ayahuasca”, diz.

Ainda segundo o delegado, um trabalho de conscientização será realizado nas aldeias indígenas para alertar sobre os procedimentos.

www.tribunadojurua.com – Genival Moura

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Psicologa presa com DMT

Uma psicologa de 30 anos foi presa em Canoas - RS com DMT, ainda encontraram em sua casa quantidades irrisórias de LSD e maconha. Segundo os delegados Cleomar Marangoni e Luiz Fernando Martins de Oliveira, titular do 3°Din/Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), ela estaria recebendo a substância via correio.

De fato o DMT (Dimetiltriptamina), o princípio ativo da ayahusca (junto com o inibidor de monoamonoxidose, que permite o efeito do DMT via oral), encontra-se na lista da ANVISA podendo ser considerado "droga" e passível de punição. Entretanto, a psicologa foi presa pela acusação de tráfico, já que de acordo com a lei 11.343 de 2006, como usuária ela não poderia ser presa. A psicologa alegou que utilizava o DMT para pesquisas.

Segundo o delegado ela vendia o DMT e outras drogas em rave, entretanto, em sua casa foram encontradas os seguintes constituintes de perigossíssimo tráfico, quiçá guerrilha organizada:

"Além do DMT, foram encontrados na casa da psicóloga LSD, maconha mentolada, skank, 58 dólares e R$ 100. O material estava em uma maleta com personagem de desenhos infantis".

E eis o nível da declaração de um dos delegados: "Cada vez mais a gente percebe que esses traficantes de drogas novas, sintéticas, não tem noção do mundo que estão participando. Parece que a sociedade ainda não se deu conta do mal dessas drogas. A família dela ficou surpresa", revelou.

A mulher tinha 100 reais e 58 dolares. Pera lá! Agora, a partir das noticias não dá nem para saber quantos gramas de DMT a mulher tinha. São ridiculas as reportagens e apreensões dessa negligência policial. Com tanto crime acontecendo de fato, com tanta violência por ai, chega a soar ridícula a apreensão de DMT de uma psicologa de 30 e poucos anos.

Alguns locais onde a notícia foi veiculada:

Alô Brasil

Zero Hora

Todo nosso apoio a companheira de profissão!

Libertem a Psicologa!

- Enquanto tais arbitrariedades acontecem, esperamos que a Lei sobre o tráfico do deputado Paulo Teixeira chegue logo! -