segunda-feira, 8 de março de 2010

Considerações sobre "Nascer não basta" de Luigi Zoja


Lugi Zoja em seu livro “Nascer não basta: iniciação e toxicodependência” vai abordar o fenômenos da farmacodependência por um viés junguiano(1) . Faz isso em meio a uma nebulosidade na psicologia complexa, já que o assunto é simplesmente ignorado pela maioria dos junguianos ou pós-junguianos.

Zoja vai considerar a “dependência de drogas”(2) como um resultado a tentativa de re-ritualização, de vivenciar aspectos arquetípicos (3) da iniciação(4) que foram reprimidos pela cultura ocidental moderna; uma tentativa que, antes de se dar, já falhou. Vai abordar tal temática observando de que forma os “modernos”, em diferença com os “primitivos”, ou povos originais, lidam com o consumo de substâncias psicoativas. Enquanto o consumo em sociedade originais é estruturado através de ritos(5) o consumo contemporâneo normalmente está ligado a um pseudo-rito moderno, isto é, o consumismo (e sua conseqüente dependência, a oniomania). Sua abordagem passa, portanto, por uma tentativa de integrar:

A - um viés arquetípico
B – um viés psicológico
C - um viés sociológico.

Embora sua abordagem seja muito interessante de um ponto de vista genérico, o autor apresenta uma série de equívocos e acaba levando uma abordagem inovadora para uma produção reacionária.

domingo, 7 de março de 2010

Para uma ciência do prazer farmacológico


Esse texto do Escohotado é sensacional. Dá até vontade de ler Jonathan Ott, mas achei impossível achar os livros dele em sebos ou livrarias.

Esse post merece inclusive comentários mais alongados, os quais não farei agora.. Mas fica o texto para os leitores deste estranho recinto. Escohotado, como sempre, permanece figurinha carimbada.

PARA UNA CIENCIA DEL PLACER FARMACOLÓGICO

En el mundo de la psiconáutica –una expresión acuñada por Ernst Jünger a mediados de siglo- el bagaje teórico/práctico de Jonathan Ott es incomparable. Su monumental Pharmacotheon: drogas enteogénicas, sus fuentes vegetales y su historia (Libros de la Liebre de Marzo, Barcelona, 2ª edición revisada 1996), dejó por eso atónitos a conocedores y curiosos. Aunque todavía no haya cumplido los cincuenta años, Ott lleva más de dos décadas siendo una figura muy destacada de la ilustración en este terreno, que organiza simposios internacionales, publica media docena de libros, funda revistas y editoriales, descubre e investiga como químico nuevas o viejas substancias psicoactivas y, en definitiva, contribuye a poner conocimiento y razonamiento donde otros siembran ignorancia y sofismas. Ahora ofrece al lector en castellano su último libro: Pharmacophilia, o los paraísos naturales (Phantastica, Barcelona, 1999), que vuelve a ser una fiesta.

sábado, 6 de março de 2010

The Soul-Searchers

Um trecho de In My Own Way: Uma Autobiografia, 1915-1965
© 1972 por Alan Watts. Pantheon Books

Diretamente do Mundo Mágico do Cogumelo

The Soul-Searchers

Retornando a América [em 1958] eu fui apresentado à aventuras psiquiátricas de um tipo muito diferente. Aldous Huxley tinha recentemente publicado “As portas da perceção” sobre seus experimentos com mescalina, e havia por essa época ido à exploração dos mistérios do LSD. Gerald Heard havia se juntado a ele nessas investigações, e em minhas conversas com eles eu percebi uma evidente mudança de atitude espiritual. Em síntese, eles haviam deixado de ser Maniqueístas. Sua visão de divino agora incluía a natureza, e eles se tornaram mais relaxados e humanos, então eu peguei falando a eles sobre minha própria persuasão. No entanto, pareceu-me altamente improvável que uma verdadeira experiência espiritual pudesse se dar pela ingestão de alguma química particular. Visões e êxtase, sim. Um pouquinho do sabor místico, como nadar com bóias nos braços, talvez. E talvez um novo despertar para alguém que tenha feito a jornada antes, ou um insight de uma pessoa experiente na Yoga ou o Zen.

No entanto, nesses “planos interiores” eu sou de uma natureza aventureira, e sou disposto a testar a maioria das coisas. Ambos, Aldous e meu ex-aluno na Academia, o matemático John Whittelsey, mantinham contato com Keith Ditman, psiquiatra encarregado da pesquisa do LSD no departamento de neuropsiquiatria da Universidade de Los Angeles. John estava trabalhando com ele como estatístico em um projeto elaborado para testar os efeitos da droga em dependentes do álcool e para mapear seus efeitos no organismo humano. Como muitos de seus tópicos relatavam estados de consciência que poderiam ser lidos como relatos de experiências místicas, eles estavam interessados em testar em “experts” do campo, apesar de um místico nunca ser realmente especialista da mesma forma que um neurologista ou um filólogo, por seu trabalho não ser uma catalogação de objetos. Mas eu me qualificava como um perito na medida em que eu também tinha um conhecimento considerável intelectual da psicologia e da filosofia da religião: um conhecimento que, posteriormente, me protegeu dos aspectos mais perigosos desta aventura, me garantindo um compasso e algo como um mapa neste território indomável. Ademais eu confiei em Keith Ditman. Ele não estava com medo, como muitos Jungianos, do inconsciente. Não foi imprudente, mas parecia frio, cauteloso, comedido nas opiniões, porém vivo, com olhos brilhantes e intensamente interessado em seu trabalho.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Psicomiméticos, perturbadores, alucinógenos ou enteógenos?



As substâncias que alteram radicalmente nossa percepção e sensibilidade já foram classificadas de diversas formas, dentre as quais as relacionadas com o efeito psíquico (p.ex, alucinógenos) como às que remetem a classificação ao efeito da substância no sistema nervoso central (p.ex, perturbadoras).

É fato que estas substâncias são, até certo ponto, incógnitas para uma série de pesquisadores que relacionam-se com elas de forma extremamente moralista. Afinal, se estas substâncias não exatamente estimulam o sistema nervoso central (como a cocaína, anfetaminas, etc) não deprimem o sistema nervoso central (como os ansiolíticos, opiáceos, etc.), então, afinal, de que modo agem? O termo “perturbadores” é infeliz; como assim perturbam? Tirando o caráter pejorativo poderíamos dizer então “alteradores”, não é verdade?

quinta-feira, 4 de março de 2010

Boletim do ENCOD nº 61 Traduzido


BOLETIM ENCOD SOBRE POLITICAS DE DROGAS NA EUROPA
NR. 61 MARÇO DE 2010
ACERCANDO A VERDADE

De 8 a 12 de março, 2010, a Comissão de Entorpecentes da ONU celebrará sua reunião atual em Viena, a fim de avaliar os resultados da atual estratégia de controle de drogas. O objetivo declarado desta estratégia é reduzir a produção, o tráfico e a demanda de drogas ilegais. A verdade é que não existe nenhum resultado positivo desta estratégia em absoluto.
Em 23 de fevereiro de 2010, durante a Audiência Pública sobre a Política de Drogas da UE (União Européia) co-organizada pelo ENCOD no parlamento europeu, Carel Edwards, o chefe da unidade de Coordenação Anti-drogas da Comissão Européia declarou que: “A repressão não funciona. Agora sabemos o suficiente para chegar a esta conclusão”.



Desde março de 2009, a Comissão Européia tinha em sua posse um informe sobre o impacto das políticas de drogas sobre o Mercado Global das Drogas Ilícitas entre 1998 e 2007. Este informe chega a seguinte conclusão: as atuais políticas de drogas, baseadas na proibição, não conseguem diminuir a oferta e demanda de drogas e estão causando danos a indivíduos e a sociedade em geral.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ululândia e Arnaldo Bloch


fonte: http://psicotropicus.org/psicoblog/opiniao/ululandia-reflexoes-algo-obvias-sobre-drogas-e-upps-em-resposta-a-email-de-um-leitor/

terça-feira, 2 de março de 2010

Cannabis pode realmente causar esquizofrenia?

Cannabis pode realmente causar esquizofrenia?


Dartiu Xavier da Silveira


Transcrito de: Xavier da Silveira, Dartiu. Moreira, Fernanda Gonçalves. Panorama Atual de Drogas e Dependências. São Paulo: Atheneu, 2006, pgs. 96-7.


Uma parcela significativa dos psiquiatras clínicos tem em sua casuística pelo menos alguns casos de psicose induzida ou desencadeada pelo uso de cannabis. Algumas vezes estas configuram situações de difícil manejo clínico e nos remetem a refletir mais profundamente sobre a associação entre psicose e o uso de substâncias psicoativas. Infelizmente os poucos estudos atualmente disponíveis na literatura sobre o tema ainda são controversos. É inegável que o uso de qualquer substância psicoativa sempre envolve algum nível de risco. Aliás, é a partir desta constatação que vem sendo desenvolvidas, nas últimas décadas, estratégias de redução de danos direcionadas sobretudo àquelas indivíduos que não conseguem se abster de consumir drogas. Cabe aqui ressaltarmos que os modelos de tratamentos disponíveis não conseguem tratar sequer a metade dos dependentes químicos que nos procuram. É sobretudo para esta maioria de dependentes químicos que não conseguimos tratar que se dirigem as intervenções de redução de danos. Nesse sentido, a proposta holandesa de tolerância com relação ao uso de cannabis de forma alguma decorre de algum tipo de simpatia especial deste povo com relação às drogas.


sábado, 27 de fevereiro de 2010

3o Encontro da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia

Copiado e Colado do: Hempadão.

A equipe da Hempadão acompanhou de perto a terceira reunião da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia. O evento realizado na fundação Viva Rio teve início hoje, às nove horas da manhã e terminou por volta de 13h. A reunião contou com a participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Paulo Gadelha, presidente da FioCruz e Regis Fisher, Secretário da Casa Civil do Rio de Janeiro, que substituiu o governador Sérgio Cabral. O evento foi fechado para a imprensa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Introdução a Redução de Danos


Eu ia fazer um pequeno post introdutório a Redução de Danos, mas resolvi aproveitar o subcapítulo 3.1 da monografia que fiz para a conclusão da especialização em saúde mental na ENSP-Fiocruz por uma mistura de preguiça e comodidade. Segue abaixo então a introdução a RD. Espero que seja proveitoso, já que é um assunto muito pertinente para quem se interessa por substâncias psicoativas, por política de "drogas" e modelos de atenção em saúde.


Em primeiro lugar, vamos tentar nos aproximar da constituição da Redução de Danos (RD). Ela aparece em meados da década de 1970 tanto na Holanda, em Amsterdã e Rotterdã, como em algumas cidades britânicas como Liverpool (Buning, 2006), tendo sido organizada e desenvolvida por: “especialistas, autoridades locais e representantes de usuários de drogas, em algumas cidades européias” (op.cit, p.345); A RD surge em cidades que enfrentavam problemas sérios com farmacodependentes, comunidades protestando, ineficiência na organização dos serviços de saúde, impotência e ineficácia da força policial. Portanto, a RD surge como alternativa a uma política de repressão e um tratamento que, visando a doença e a completa abstinência, eram claramente ineficientes, além de não respeitarem ou focaram nas pessoas como cidadãs e na experiência humana como complexa, indeterminada. É só a partir de um reducionismo, de um modelo determinista que podemos dizer que a “doença” do “ébrio”, do dependente, é algo progressivo, crônico, isto é, que já possui uma história dada como produções químicas. Nas palavras de Alan Marlatt (2000):


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Resposta a Dilma Rouseff


A revista época entrevistou Dilma Rousseff, dia 20/02.
Link para matéria completa no Growroom

Eu copio abaixo a parte referente as "drogas" e abaixo uma discussão introdutória.

Revista Época - 20/02/2010

TRECHO SOBRE MACONHA E OUTRAS DROGAS

ÉPOCA – Como a senhora vê a descriminalização das drogas?

Dilma – A droga é uma coisa muito complicada. Não podemos tratar da questão da droga no Brasil só com descriminalização. Estou muito preocupada com o crack. O crack mata, é muito barato, está entrando em toda periferia e nas pequenas cidades. Não vamos tratar o crack única e exclusivamente com repressão, mas com uma grande rede social, que o governo integra. Há muita entidade filantrópica nas clínicas de recuperação. A gente tem de cuidar de recuperar quem já está viciado e cuidar de impedir que entrem outros. Tem de cuidar também para criar uma política de esclarecimento sobre isso. Não acho que os órgãos governamentais, Estado, municípios e União, vão conseguir sozinhos. Vamos precisar de todas as igrejas e entidades que têm uma política efetiva de combate às drogas. A questão da droga no século XXI é muito diferente daquele tempo de Woodstock, que tinha um componente libertário.

ÉPOCA – A senhora é a favor da repressão mesmo no caso de drogas leves, como a maconha?
Dilma – Não conheço nenhum estudo que comprove que a droga leve não seja o passo para outra. Esse é o problema. Num país com 50 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, é complicado falar em descriminalização, a não ser que seja para fazer um controle social abusivo da droga. Não temos os instrumentos para fazer esse controle que outros países têm. A não ser que a gente tenha um avanço muito grande no controle social da droga, fazer um processo de descriminalização é um tiro no pé. O problema não é a maconha, mas é o crack. O crack é uma alternativa às drogas leves, médias, pesadas. Não é possível mais olhar pura e simplesmente para a maconha, que não é um caso tão extremo nem tão grave.

Reflexões:

De modo geral o pronunciamento de Dilma sobre as “drogas” é catastrófico e mostra um tipo de continuidade com as medidas repressivas inaceitáveis, especialmente quando um número cada vez maior de paises tem adotado estratégias de descriminalização com resultados positivos, com o caso de Portugal e, considerando políticas de drogas ainda mais antigas, podemos citar a Holanda. Estudiosos do tema, que poderiam servir de referência para superar a incompetência política de nossos governantes, já que trazem a complexidade da questão, dados históricos e culturais, como Antonio Escohotado, são francamente ignorados.


Vamos aos comentários da candidata à presidência Dilma Rousseff.

Pinceladas Acerca da Experimentação

"Em vez de os buracos no mundo permitirem que as próprias linhas do mundo fujam, as linhas de fuga enrolam-se e põem-se a rodopiar em buracos negros, cada drogado em seu buraco, grupo ou individuo, como um caramujo. Caindo mais no buraco do que no barato." (Deleuze & Guattari)

Pinceladas Acerca da Experimentação.


A experimentação como método ou como prática não deixa de apresentar muitos mistos e lacunas com as quais nos deparamos e muitas vezes deixamos escapar. Deixando de relevar questões que não param de saltar dessas experimentações nos tornamos cegos ao que pode, na mesma medida, nos destruir. A questão do uso de substancias alteradoras da consciência e da percepção parece pertinente nesse sentido, pois o que a principio é portador de potência pode se converter em buraco-negro, princípio de decadência.

Percebe-se que não generalizo o uso de substancias ao que seria a experimentação, mas o contrário. Drogar-se é uma das varias e singulares experimentações. A potência no uso de substancias está na mudança qualitativa tanto da percepção quanto do entendimento, que ela desencadeia. Ha uma transformação da percepção cotidiana para uma percepção mais refinada, diretamente investida na duração do efeito da droga. Entretanto, tais efeitos não são propriamente intrínsecos a substância, e está tanto mais conectada a interação com o usuário. De modo que não só as substancias que usamos que nos levariam a tais percepções, assim como não necessariamente a droga leva a uma alteração positiva, havendo, como se sabe, muitos casos de "bad trip" e "surtos psicóticos", que levam muitos psiquiatras e psicanalistas a demonizarem o uso. Assim como muitos usuários que fazem do uso compensações a um cotidiano massacrante etc.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

LA PROHIBICIÓN: PRINCIPIOS Y CONSECUENCIAS

Texto de Antonio Escohotado

La experiencia vivida con drogas diferentes en épocas diferentes y lugares diferentes, nos ofrece un banco de datos sobre el modo como el hecho de ser legales, ilegales o ajenas a cualquiera de esos estatutos influyó sobre su producción y consumo. A la luz de estos datos es oportuno repasar el cuadro de las razones expuestas por el prohibicionismo farmacológico.