segunda-feira, 8 de março de 2010

Considerações sobre "Nascer não basta" de Luigi Zoja


Lugi Zoja em seu livro “Nascer não basta: iniciação e toxicodependência” vai abordar o fenômenos da farmacodependência por um viés junguiano(1) . Faz isso em meio a uma nebulosidade na psicologia complexa, já que o assunto é simplesmente ignorado pela maioria dos junguianos ou pós-junguianos.

Zoja vai considerar a “dependência de drogas”(2) como um resultado a tentativa de re-ritualização, de vivenciar aspectos arquetípicos (3) da iniciação(4) que foram reprimidos pela cultura ocidental moderna; uma tentativa que, antes de se dar, já falhou. Vai abordar tal temática observando de que forma os “modernos”, em diferença com os “primitivos”, ou povos originais, lidam com o consumo de substâncias psicoativas. Enquanto o consumo em sociedade originais é estruturado através de ritos(5) o consumo contemporâneo normalmente está ligado a um pseudo-rito moderno, isto é, o consumismo (e sua conseqüente dependência, a oniomania). Sua abordagem passa, portanto, por uma tentativa de integrar:

A - um viés arquetípico
B – um viés psicológico
C - um viés sociológico.

Embora sua abordagem seja muito interessante de um ponto de vista genérico, o autor apresenta uma série de equívocos e acaba levando uma abordagem inovadora para uma produção reacionária.



O argumento de Zoja é que, mediante o desaparecimento de rituais institucionalizados (p.ex, a perda do poder de afetação do batismo e do casamento religioso), o homem moderno ficou, diante de uma cultura laica, sem a vivencia da iniciação que mediava aspectos conscientes e inconscientes em momentos chave da vida (nascimento, passagem da infância a vida adulta, casamento, morte, etc.), resultando num certo “desenraizamento”. Como haveria uma “necessidade” de ritos de passagem, de iniciações, este aspecto da psique teria se tornado inconsciente e, quando reprimido e não elaborado, acaba se tornando sombrio(6). O que nos leva a idéia de “inciação negativa”. Por iniciação negativa Zoja entende:

Uma iniciação destrutiva e inconsciente que tende, como única renovação, à perda da condição ou da personalidade até então substitente, que não inaugura novas condições e encontra na pura perda a sua realização e seu acabamento.

O italiano, apesar de seu rebuscamento intelectual, acaba por se prender num problema sério e numa falta de rigor, senão em ideologização pró Guerra as Drogas (7). Ele considera que, mediante uma cultura formada pelo mass mídia e pelo consumismo como pseudo-rito coletivo, o consumo de substâncias psicoativas leva necessariamente a um uso consumista e dá a entender que este consumo é sempre problemático, embora também veja nele alguns aspectos positivos. Zoja não leva em consideração a possibilidade de um uso ocasional ou recreativo que em nada tenha haver com questões de iniciação ou mesmo consumismo. Ele acaba produzindo um enquadramento sociologizante, como se a sociedade fosse monolítica e não plural, derretendo a singularidade e diversidade dos consumos e das pessoas. Daí suas categorias de “herói negativo”, “iniciação negativa” e “sacrifício negativo”. Tudo isso chega a ser incrível se pensarmos que Zoja tenta, por vezes, utilizar o conceito grego de “fármaco” (pharmakon), outrora, porém, utiliza conceitos muito equivocados numa tentativa de englobar as substâncias psicoativas como “substância tóxica”, além de falar em “intoxicação” e “vício”.

Claro que o foco de Zoja é na dependência e não no consumo não dependente, ou que porventura seja benéfico ao usuário. Quando abordamos um tema tão complexo, todavia, é mister esta consideração que, se por um lado Zoja aponta com suas descrições etimológicas (o significado não prejorativo da maioria dos significantes das substâncias psicoativas) , por outro acaba por desembocar em reducionismos infelizes (todo usuário ou todo uso é “isto” ou “aquilo” sem as relativizações devidas).

Em última análise, parece que Zoja, apesar de tudo, escolheu seu lado, o lado da guerra as drogas conscientemente, quando afirma:

Não se pode concluir continuando a problemas a neutralidade de quem se ocupa destas coisas (8). Sabemos que, feitas as devidas diferenças de acordo com as substâncias, as drogas podem em seu conjunto ser sem dúvida devastadoras para o organismo. Mas, deixando de lado este aspecto, que já é conhecido e sobre o qual não tenho nenhuma competência específica, procurarei resumir por que elas podem ser devastadoras no plano psicológico.

Classificação de Zoja

Como falavamos de classificação há pouco no blog, não resisti a colocar a classificação que Zoja faz. Embora simples, é uma classificação diferente, que busca ver as substâncias psicoativas a partir dos efeitos típicos em relação à estrutura psicologica profunda. Zoja, após considerar a relação pessoal sujeito-"droga", mostra sua categorização:

As substâncias presetam-se a:

1) Facilitar a experiência simbólica, ativando as produções inconscientes (efeito simbolizante)
2) Alterar temporariamente a relação entre o Ego e o superego (efeito hipertrófico)

Zoja considera então na 1a categoria o que chama de "alucinógenos" (nossas críticas a esta categoria já foram colocadas) e a 2a exemplifica pelo álcool que, segundo Zoja, não mostraria relação tão direta com a experiência simbólica e imagética (só no caso, lembra ele, do delirium tremens). Zoja, porém, se engana. O álcool já foi muito usado para fins rituais e com o contato com o sagrado. Parece que James Hillman se enganou ao chamar Zoja de an "anthropological psychologist". Faltou antropologia a Zoja.

>[1] - Referente a Psicologia Complexa (ou Profunda, conhecida mais comumente como Psicologia Analítica, embora este nome tenha pouca relação com o que esta psicologia) fundada pelo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961).
[2] - Ele chega a sugerir o termo “iniciação às drogas” por considerar o objeto de sua análise a fantasia que se daria no consumo de “drogas” em direção a um “mundo novo”, uma “vida nova”.
[3] - Nos referimos ao conceito de arquétipo de Carl Gustav Jung. Do modo mais simples, e o menos rigoroso possível, entendemos arquétipo como “forma vazia de conteúdo”, isto é, potenciais virtuais de enquadramento da experiência que são vivenciados de forma singular e sempre atualizados nas mais diversas manifestações culturais.
[4] - Zoja vai dissecando o que quer dizer com iniciação ao longo do texto com uma série de esquemas. O esquema ou processo básico da iniciação, ou ritos de entrada e saída, pode ser resumido do seguinte modo: 1- situação inicial; 2- morte iniciática; 3- renascimento iniciático.
[5] - Vários autores têm observado que o uso de substâncias psicoativas por povos não-ocidentais nem sempre se deu também pela via ritual. Haviam também usos hedonistas dos “alimentos” psicoativos.
[6] - Relacionado ao conceito junguiano de “Sombra”. A idéia é que quando algo é reprimido não é trabalhado, não é visto e vai se tornando menos adequado à lógica da consciência, que seria apenas uma lógica e não “A” lógica. Apareceria, portanto, um possível conflito no caso do “retorno do reprimido”. Esta idéia é uma derivação do “retorno do recalcado” de Freud. Em termos psicodinâmicos um conteúdo inconsciente vai se relacionando a outros, de forma que o complexo ideo-afetivo vá se fortalecendo até devir consciente.
[7] - E, como de praxe, apesar de muitos argumentos bem encadeados, quando Zoja fala de “combate às drogas” vai parar no próprio “mundo da lua” (ou ainda mais longe) que vê num caso clínico que expõe. Zoja chega ao cumulo de dizer: “A fenomenologia da droga consiste, em geral, em homens que não sabem aceitar a vida: terreno onde não podem ser evitadas frustrações”, desconsiderando que o consumo típico da maioria das substâncias psicoativas não se equivale a dependência sequer nos termos da classificação internacional das doenças (CID).
[8] - Referindo-se as "drogas".

3 comentários:

Felipe Silva disse...

Eu fiz a leitura do livro. Gostei muito, abriu novas perspectivas. Em geral a ênfase dos tratamentos recai sobre a abstinência. Necessária, óbvio. Mas precisamos entender a alma, os aspectos psíquicos envolvidos. Saludos, Felipe Luiz Gomes e Silva - S. Carlos - S.P.

Felipe Silva disse...

Sim, o álcool foi utilizado (vinhos?!) em rituais.
Nos rituais sincréticos aguardente (cana) é usada no Brasil. Mas... como nunca pesquisei e nunca usei em rituais não sei se abre as pessoas conseguem simbolizar e entrar em contato com o imagético, arquétipos. Tudo indica que acontece em rituais com o Santo Daime, já ouvi pessoas que usaram em rituais dizer que simbolizaram .
Tudo é perigoso. Somos únicos! Sei que, por experiência própria, o anafranil provoca efeitos na minha pessoa que não provoca em outras. Setralina me derruba! Cuidado!

Saudações saudáveis,

Felipe Luiz Gomes e Silva, São Carlos - S. Paulo.

Felipe Silva disse...

Outro comentário. Se não há possibilidade de reiventar os rituais tribais e tradicionais com o uso da dose certa da droga o dependente químico fica sem saída? E a arte-terapia? Lembro do trabalho da Nise da Silveira com os ditos doentes mentais, pessoas que vivem em outro estado de ser. Emoção de lidar! Felipe Silva - São Carlos

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