Fonte: Hempadão
por Fernando Beserra
Para começar, podemos citar ainda no século XIX, o tradicional livro “Os paraísos artificiais” de Charles Baudelaire, onde o poeta julga maravilhosamente o vinho – fonte e meio para o alcance de grandes alturas – e de forma horrenda o haxixe. O dr. da poesia chega a afirmar em seus “Exórdio para as conferências dadas em 1864 em Bruxelas”:
“Em tudo isto há muita coisa que tem que ver com os médicos. Ora, eu quero fazer um livro não de pura fisiologia, mas sobretudo de moral. Quero provar que os buscadores de paraísos fazem o seu inferno, preparam-no, cavam-no com um resultado cuja previsão talvez os horrorizasse”.
Em sua obra sobre o Soma, Wasson cita passagens de Eliade sobre o “embriagantes xamânicos”. O antropólogo romeno chega a dizer que a “embriaguez mediante drogas (cânhamo, fungos, tabaco, etc) era um fenômeno recente que representava “a decadência dos xamãs de hoje”, embora Eliade fale deste modo, em nenhum livro cita referências ou um estudo da temática. Chega a dizer: “Os narcótico são só um vulgar substituto do transe ‘puro’”. Entretanto, a partir da obra de vários outros autores observamos que o uso de enteógenos remonta a milênios e era parte fundamental da cultura dos povos tradicionais (cf. La planta de los dioses; Pharmacotheon; Alimento dos deuses). Os próprios usos de substâncias não tradicionais por xamãs, a exemplo do álcool em alguns locais, ou mesmo do tabaco, não constitui necessariamente uma deterioração. Várias bebidas ou mesmo o tabaco foram incorporados em várias culturas de forma ritualizada, e só degeneraram quando da completa invasão do “homem branco” e sua destruição das culturas tradicionais.
De forma tardia Eliade reconheceu o papel das “drogas” nas religiões, embora tenha dito, numa palestra ele não desejou ser questionado sobre este papel, e, ao ser perguntado, disse “não sei nada acerca delas”, e concluiu no auge da moralidade: “Não gosto dessas plantas”.
Para evitar a fadiga, como diria o mestre Jaiminho, encerramos hoje por aqui lembrando que os enteógenos são tão naturais e tão humanos, provavelmente sendo consumidos antes mesmo do neolítico, quanto um simples e singelo pum. O radical idealismo, daqueles que não vê que a base biofisiológica que estamos ligados e que pode ser aprimorada, não se atenta ao fato de que grandes figuras da humanidade comiam e cagavam. O fazer alma (soul-making) está nas relações com o mundo, da roda xamânica à Marcha da Maconha.
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